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O Unicórnio

O dia a dia de um Unicórnio. Suas inspirações, aventuras e desaires.

O dia a dia de um Unicórnio. Suas inspirações, aventuras e desaires.

O Unicórnio

11
Jan16

O Lobo Mau vive em Torres Novas e anda de bicicleta.


O Unicórnio

A caminho de Torres Novas para uma consulta, lembrei-me de um acontecimento que vivi naquela cidade tinha uns doze, treze anos. Nessa altura, estudava no Colégio de Santa Maria (riam-se à vontadinha que não me ralo) e por vezes ao fim do dia, descia a pé para o centro da cidade para apanhar o autocarro que me levaria de regresso à aldeia. Sempre acompanhada por duas ou três colegas, lá íamos de farda azul e meia branca com renda, mochila e lancheira às costas e naquele dia chuvoso, levava também um chapéu de chuva roubado à saída do colégio que até hoje ninguém reclamou.  

No meio do percurso, reparei que estávamos a ser perseguidas por um homem de bicicleta. O animal usava óculos fundo do garrafa, estava na casa dos cinquenta e notava-se pela forma com que nos olhava que tinha lido o "Lolita" do Nobokov e que alimentava em si, uma enorme sede de contacto com miúdas que ainda nem tinham pelos nas pernas. Ora, o macaco, pedalava devagar sempre nos mirando e soltava umas parvoíces típicas de gente que não tem onde enfiar o pirilau quando chega a casa. Nós, miúdas de colégio, habituadinhas a sopa de estrelinhas e a rezar o terço quase todos os dias, íamos fingindo que não estávamos a perceber o que aquele grandessíssimo animal pretendia. Passámos à porta de um minimercado e fiz sinal às minhas colegas para que me seguissem e entrámos.  

No interior, colocámos os nossos pertences no chão e eu que sempre gostei de comandar as tropas, disse que teríamos que fazer algo para travar as investidas daquela grande besta que continuava lá fora à nossa espera. Fui falar com a dona do minimercado e contei-lhe o que se passava. A grande vaca não me passou cartão. Contei-lhe que estávamos a ser perseguidas e que tínhamos medo, e a grande vaca, continuou serena e a fazer contas. 

Eu, miúda que nunca tive medo de entrar numa briga fosse com quem fosse, decidi que tínhamos que fazer pela vidinha e limpar o sebo àquele bruto. Juntámos as cabeças e eu lá fui segredando às minhas amiguinhas o que teríamos que fazer. 

Passados uns minutos, saímos do minimercado, continuámos a andar e o seboso sempre atrás de nós. Tal como combinado e ao meu sinal, parámos de repente no meio da estrada, agarrámos com toda a nossa força nas mochilas, chapéus e demais pertences, corremos para a grande besta, pontapeámos a bicicleta que conduzia, o animal caiu ao chão e demos-lhe uma sova.

Levou uma tareia de três miúdas (uma das minhas colegas tinha o tamanho de uma alfaia agrícola e valia por duas) que nunca esquecerá. Obviamente que nunca usei o chapéu de chuva para lhe bater, mas sim os pés e deu-me enorme prazer dar biqueiros naquela fronha pérfida e mal cheirosa. Acabada a tarefa, demos as mãos todas a tremer e fomos a correr muito nervosas, apanhar o autocarro.

No dia seguinte, no colégio, fomos as três à missa da tarde, depois de termos almoçado sopa de estrelinhas. Durante a homilia, olhávamos umas para as outras e sorríamos, cúmplices, olhando para os sapatos que ainda pingavam sangue daquela grande besta (ok, não pingavam, mas eu juro que lhe parti um dente da frente). 

O-Capuchinho-Vermelho.jpg

 

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